quarta-feira, 3 de junho de 2009

Recorte literário: LEITE DERRAMADO

Como não podia ser diferente, estou lendo o último livro de Chico Buarque, "Leite Derramado". E como não podia ser diferente, declaro que estou achando excelente. Uma narrativa alinear, cheia de musicalidade, como costumam ser os livros do Sr. Buarque e uma história com muitos significados. Ao relatar as memórias de Eulálio Montenegro D´Assumpção, um velho centenário no leito de um hospital, membro de uma família tradicional brasileira, o autor vai imprimindo na história as fragilidades da memória e um conhecimento sem fim da alma humana.

Recortei uma das passagens que mais me impactou para degustação de todos. Já passadas140 páginas do livro, capítulo 20, Sr. Assumpção começa a descrever uma passagem de sua vida em que a filha se envolve com um jogador de futebol e praticamente se esquece do filho, do primeiro casamento, neto do narrador e de mesmo nome, Eulálio, apegado ao avô.

"(...) Em Copacabana já me torciam o nariz, por dar guarida a um jogador de futebol meio caboclo, ademais eu recebia seguidas queixas do condomínio contra gritarias noturnas no meu apartamento. Porque o Xerxes, quando bebia, costumava bater na minha filha, mas em bairros populares cenas do gênero são corriqueiras, não escandalizam ninguém. Nessas noites turbulentas o Eulálio vinha ter comigo, e eu havia mesmo separado o outro quarto para ele, que estava grande para dormir na minha cama. Faltou-me prever que Maria Eulália também acabaria por se juntar a nós, depois que Xerxes por pouco não lhe abriu a garganta com uma navalha. Aquele cangaceiro continuou morando porta a porta conosco, acolhia criaturas no apartamento de Maria Eulália para noitadas de aguardente, boleros e pancadaria. E quando viu chegar o oficial de justiça com a ordem de despejo, reagiu à bala. Só consentiu em entregar as chaves mediante recebimento de metade do valor do imóvel, que a minha filha vendeu para cobrir um rombo na conta bancária. Tais acontecimentos, por mais dolorosos, serviram para reaproximar nossa família, era visível o conforto do Eulálio com a mãe ali quietinha numa cama ao lado da sua. E ela naturalmente se afeiçoava mais e mais ao garoto, só de sentir sua presença noite trás noite absorto em leituras, à luz da lanterna na cabeceira. Mas não o interrompia com lengalengas maternais, não o importunava com beijos e afagos, nem com olhares apreensivos, tenho a impressão de que Maria Eulália amava o filho com o olfato (...)."

  • Para quem está lendo a obra ou apenas quer saber mais sobre o livro, indico a leitura da crítica escrita por José Castello, publicada no jornal O Globo - Caderno Prosa e Verso de 28/03/2009. Clique aqui para lê-la.

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