terça-feira, 21 de abril de 2009

Os olhares de Verônica - Uma série de contos II

Não segui a periodicidade que havia prometido, mas está aí mais um conto da série Os Olhares de Verônica. Eles aparecerão por aqui assim que Verônica tiver o que contar do que tem visto ou vivido.



Efeitos químicos colaterais

Tinha tomado um antialérgico na noite anterior. Dormiu quase doze horas e acordou diferente. O mundo não era o mesmo para Verônica. Seu quarto de repente tornou-se cinza mesmo cheio de cores. Uma angustia invadia todas as suas células. Era a química do remédio, só podia ser. Verônica não enxerga assim.

Pela janela um céu azul, limpo, claro. O jardim resplandecia vida com seu verde intenso. Mas, todas as cores estavam irritando Verônica. O simples fato de existirem fazia sua estômago revirar. Odiou aquela intensidade por todo aquele dia. Seu olhar era nublado, opaco, sem vida, colateral. Era a química daquele antialérgico que fazia Verônica escolher pelo escuro proporcionado por seus olhos fechados. Resolveu passar grande parte do dia assim, no escuro. O negro lhe trazia paz.

E esperou o efeito passar. A reniti já tinha ido embora, bastava os efeitos colaterais se dissiparem de seu organismo. Com certeza iriam passar. Era uma questão de tempo. À noite, quando abriu os olhos, percebeu que já não doia mais mantê-los assim. Apatia e melancolia ainda estavam por ali. Mas, as cores começaram a voltar, aos poucos. Talvez dormir e acelerar a chegada de um novo dia seria a solução. Foi o que ela fez e dedicou seu olhar aos seus sonhos.

Acordou sem lembrá-los. Como sempre acontecia. Abriu os olhos, preguiçosamente e as cores de seu quarto eram outras. As luzes que invadiam o recinto pelas frestas da janela eram alegres, amarelas e quentes. Espreguiçou-se, respirou fundo e não doeu. Aquela química toda tinha ido embora. Seus células voltaram a ser as mesmas, cheias de vida e brilho.


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