domingo, 5 de abril de 2009

Os olhares de Verônica - Uma série de contos

O Tagarelices estréia hoje uma série de contos intitulada OS OLHARES DE VERÔNICA. Os contos sempre terão como personagem principal uma mulher observadora, imaginativa, contemplativa. Suas obervações sobre o cotidiano e a sociedade aparecerão por aqui, pelo menos uma vez por semana. Fiquem de OLHO.

VINTE E CINCO MINUTOS NO TREM

Era sexta-feira, um final de semana pela frente prometendo descanso e paz de espírito. Corpo cansado, mente moída. Foi assim que Verônica se dirigiu ao vagão menos cheio do trem. À procura de descansar a mente, colocou no MP3 uma música instrumental, que lhe serviu de trilha sonora. Era um tango argentino, nada tradicional, com toques modernos, elegantes e estimulantes. Era Gotan Project. Entre a estação de embarque e a de desembarque, exatamente 25 minutos transcorreriam.

No corredor do vagão, de pé, com pessoas à frente ocupando todos os acentos, ela segurou a barra de ferro já contaminada por toda sujeira que muitas mãos podem carregar e depositar ali com toques de suor. Estava sem nada para ler, assim, colocou-se a observar, um dos seus passatempos prediletos. Seguindo fielmente seus preconceitos e esteriótipos já bem definidos, passou seu olhar por cada ser cambaleante à frente.

Fixou-se em uma mulher sentada à beira da grande janela, com aspecto jovem, mas que provavelmente não era tão jovem assim. Em seu colo, uma mochila vermelha. Vestia calça jeans, camiseta básica branca e uma blusa de moletom de tom avermelhado, mais próximo ao que chamam de vinho. Os cabelos estavam amarrados, formando um semi-rabo de cavalo. Era um penteado que transmitia a mensagem de que não tinha sido preparado com nenhuma minúcia ou capricho, apenas um rápido nó para interromper algo que a estava incomodando. Fios de cabelos em seu rosto ou um possível calor na nuca.

Verônica observou que apoiado na janela do trem, ao lado dessa mulher, havia um exemplar do penúltimo volume de Harry Potter. As páginas estavam marcadas já perto fim, provavelmente no clímax. Entre um balanço e outro do vagão, ela pegou o livro, abriu e começou a ler avidamente as palavras de J. K. Howling. Sendo este exemplar o sexto da saga do bruxinho, outros cinco já haviam passado por sua mão e com toda a certeza, foram protagonistas de cenas como esta.

Se a vida daquela moça seguisse uma rotina, os outros cinco livros passaram por momentos parecidos, dentro do mesmo vagão. Ora lidos em pé, ora apoiados na mochila, ora apenas carregados sem interesse. A curiosidade pelos livros deve ter surgido de uma conversa entre amigos ou porque assistiu a algum dos filmes ou simplesmente o sobrinho a tinha influenciado o suficiente para abrir as páginas do primeiro, sem pretensões. Só percebeu que não poderia largá-lo depois de umas 60 páginas lidas de uma tacada só. E agora estava ali, no balanço do trem urbano, desfrutando de mais algumas linhas estimulantes de uma história feita para crianças e adolescentes, mas lida por muitos adultos.

Verônica já lera os sete e não recordava mais dos detalhes, apenas da história como um todo. Fixou seu pensamento no número sete e lembrou que há grandes significados numerológicos nele. Essa parte esotérica da vida lhe interessa demais. Assim como lhe interessa bastante observar e imaginar. Como estava fazendo naquele momento. Seus pensamentos sempre voavam. Olhou pela janela, a próxima estação era a que deveria descer. Os 25 minutos haviam passado rapidamente. Ainda bem. Se apoiar na barra de ferro imunda é sempre um desagrado para ela.

Olhou à direita e viu que não seria difícil passar por uma meia dúzia de pessoas em pé. Bastava um pedido de licença aqui, outro acolá e chegaria à porta de saída. No seu MP3, o bandoneón soava em acordes fortes, intensos. Pensou em Buenos Aires, nas flores que costumam enfeitar as ruas da cidade portenha até que a porta se abriu e na estação não havia flores, só concreto e sujeira.

1 comentários:

Fiorio disse...

Por onde estão percorrendo os olhos de nossa heroína cotidiana Verônica?