domingo, 2 de novembro de 2008

Amar o próximo?

Tá difícil amar o próximo como a mim mesma. Aliás, quase impossível. Basta observar bem as atitudes dos próximos e verás que está bem complicado. Em alguns minutos no trânsito de Santo André, cidade onde moro, no dia dos Finados, eu tive vontade de desobedecer a um outro mandamento: não matarás.


Primeiro, numa avenida conhecida da cidade, à minha frente, uma mulher em seu Palio, andava a vinte por hora olhando a paisagem como se a rua fosse a sua propriedade. O cúmulo da falta de educação foi ela chegar a parar seu veículo para ler a fachada de uma loja. Ela não parou na guia, não tirou o carro de lado, ela parou exatamente na minha frente. Comecei a contar de 1 a 10 e não soquei a buzina. Ela começou a andar no 8 e pude impedir a poluição sonora. Mais pra frente, para meu alivio, entrou numa rua à esquerda.


Finalizada a primeira etapa de fúria, veio a seguinte. Virei o meu velho carro à esquerda e deparei-me com um pedestre atravessando a rua livre, leve e lentamente, mas muito lentamente solto. Ao avistar o meu carro, ele não acelerou o passo. Segundo minhas impressões, ele desacelerou ainda mais, num tom provocativo. E neste momento, tive a certeza absoluta que amar o próximo é quase impossível e desobedecer a um dos mandamentos é totalmente viável. Minha verdadeira vontade foi jogar o carro em cima dele. Não contei até 10. Dessa vez, xinguei a mãe dele.


Cheguei ao meu destino, a padaria, com minha mãe do lado, que não é da categoria da mãe do pedestre. Ela desceu, eu fiquei esperando no carro. Estacionei na rua mesmo. Tentando recuperar meu equilíbrio interior e exterior, vejo um carro avançando na pista ao lado, um carrão, desses bonitões mesmo, na pista contrária a que eu estava e de repente uma latinha voou de dentro dele. Ouvi os gritos da latinha e reclamações da rua. A latinha sabia bem que ali não era o seu lugar e a rua se sentiu, mais uma vez, invadida por um lixo que não era dela. A casa da rua, a cidade, estressadíssima com tanto descaso, protestou por alguns minutos, mas foi em vão. Elas já desistiram de amar o próximo.


Num só dia, ou melhor, em menos de meia hora, o próximo fez questão de mostrar que está impossível amá-lo. Além de não conseguir obedecer a este mandamento, cometi um pecado original, a ira. Cheguei em casa irritadíssima, mais uma vez. E cheguei à conclusão de que em casa ou enclausurada em alguma instituição religiosa, seja bem fácil obedecer a mandamentos e não cometer pecados.


3 comentários:

Juliany disse...

Por isso que os monges tibetanos e as irmãs carmelitas são bem zen ... porque ficam zen ver ninguém, zen falar com alguém ... zen nada.

Tatiana disse...

Ai Taisoca, você tem o dom, de escrevendo me fazer sentir a sua raiva... Ahhhhhhh!!! O negócio é esquecer os mandamentos, tacar a latinha no carrão e o pedestre na motorista sem atenção!
KKKKKKKKK

JOÃO PAULO disse...

Taís,

Sou João Paulo do curso de teatro do Macunaima.....

Tudo bem com você?

Não sabias que tú eras fã de literatura...Aliás, a gente, de verdade, não sabe nada de ninguém, não é?

Bom, achei engraçadissimo e bem inteligente a forma de exposição feita por ti. Realmente, escrever sobre o ser humano e suas mutiplas facetas dá um caldo e tanto...

Espero que você continue com suas exposições.

Beijão.

João Paulo de Souza
jpsegurancadotrabalho@gmail.com