Tá difícil amar o próximo como a mim mesma. Aliás, quase impossível. Basta observar bem as atitudes dos próximos e verás que está bem complicado. Em alguns minutos no trânsito de Santo André, cidade onde moro, no dia dos Finados, eu tive vontade de desobedecer a um outro mandamento: não matarás.
Primeiro, numa avenida conhecida da cidade, à minha frente, uma mulher em seu Palio, andava a vinte por hora olhando a paisagem como se a rua fosse a sua propriedade. O cúmulo da falta de educação foi ela chegar a parar seu veículo para ler a fachada de uma loja. Ela não parou na guia, não tirou o carro de lado, ela parou exatamente na minha frente. Comecei a contar de 1 a 10 e não soquei a buzina. Ela começou a andar no 8 e pude impedir a poluição sonora. Mais pra frente, para meu alivio, entrou numa rua à esquerda.
Finalizada a primeira etapa de fúria, veio a seguinte. Virei o meu velho carro à esquerda e deparei-me com um pedestre atravessando a rua livre, leve e lentamente, mas muito lentamente solto. Ao avistar o meu carro, ele não acelerou o passo. Segundo minhas impressões, ele desacelerou ainda mais, num tom provocativo. E neste momento, tive a certeza absoluta que amar o próximo é quase impossível e desobedecer a um dos mandamentos é totalmente viável. Minha verdadeira vontade foi jogar o carro em cima dele. Não contei até 10. Dessa vez, xinguei a mãe dele.
Cheguei ao meu destino, a padaria, com minha mãe do lado, que não é da categoria da mãe do pedestre. Ela desceu, eu fiquei esperando no carro. Estacionei na rua mesmo. Tentando recuperar meu equilíbrio interior e exterior, vejo um carro avançando na pista ao lado, um carrão, desses bonitões mesmo, na pista contrária a que eu estava e de repente uma latinha voou de dentro dele. Ouvi os gritos da latinha e reclamações da rua. A latinha sabia bem que ali não era o seu lugar e a rua se sentiu, mais uma vez, invadida por um lixo que não era dela. A casa da rua, a cidade, estressadíssima com tanto descaso, protestou por alguns minutos, mas foi em vão. Elas já desistiram de amar o próximo.
Num só dia, ou melhor, em menos de meia hora, o próximo fez questão de mostrar que está impossível amá-lo. Além de não conseguir obedecer a este mandamento, cometi um pecado original, a ira. Cheguei em casa irritadíssima, mais uma vez. E cheguei à conclusão de que em casa ou enclausurada em alguma instituição religiosa, seja bem fácil obedecer a mandamentos e não cometer pecados.

3 comentários:
Por isso que os monges tibetanos e as irmãs carmelitas são bem zen ... porque ficam zen ver ninguém, zen falar com alguém ... zen nada.
Ai Taisoca, você tem o dom, de escrevendo me fazer sentir a sua raiva... Ahhhhhhh!!! O negócio é esquecer os mandamentos, tacar a latinha no carrão e o pedestre na motorista sem atenção!
KKKKKKKKK
Taís,
Sou João Paulo do curso de teatro do Macunaima.....
Tudo bem com você?
Não sabias que tú eras fã de literatura...Aliás, a gente, de verdade, não sabe nada de ninguém, não é?
Bom, achei engraçadissimo e bem inteligente a forma de exposição feita por ti. Realmente, escrever sobre o ser humano e suas mutiplas facetas dá um caldo e tanto...
Espero que você continue com suas exposições.
Beijão.
João Paulo de Souza
jpsegurancadotrabalho@gmail.com
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